sexta-feira, 20 de junho de 2014

Uma Tarde de Futebol


sexta-feira, 20 de junho de 2014

0 x 0

Como é possível parar um país inteiro por mais uma tarde? A Copa do Mundo é um evento comercial, torneio de férias, disputado por alguns dos maiores jogadores do mundo, milionários que receberão altos prêmios, além dos patrocínios por conta da festa.
Como parar um país inteiro? Desde o meio dia, a população deixou seus empregos. Bancos pararam. Comércio. Serviços públicos apenas com emergência. A multidão em festa nem se queixou de engarrafamento. Entalados nos calorentos ônibus, ainda assim alegres, contentes. Nos meios de comunicação uma barreira estrondosa de comerciais com o tema da Copa. Nossos craques, ídolos, promessas de descontos, preços, promoções. Parece que vamos todos para uma festa. Gritar gol, ver show de bola, tomar algumas, vestir verde e amarelo, juntar amigos, família, fazer novos amigos, abraçar amorosamente pessoas que nunca havíamos visto antes.
A cidade está parada. Não há trânsito aqui no centro. Um silêncio intenso toma conta das esquinas acostumadas a freadas, buzinas, fumaça, imprecações, vento. Agora o vento está livre, sem obstáculos a ultrapassar. As ruas estão solitárias. Dá pena. Um ônibus parou e seu motorista está assistindo ao jogo. Não há passageiros. Há somente uma multidão diante de aparelhos de televisão dos mais variados tamanhos e qualidade. Está tensa, roendo unhas. De repente, todos perguntam onde está a festa para a qual foram todos convidados? O show? Os gols e jogadas maravilhosas? Onde está nosso país campeão, que ninguém vence, ninguém é maior do que nós. Podemos ter todos os problemas do mundo, nosso complexo de vira latas, mas no futebol conosco ninguém pode. Onde está?
O jogo acabou e ficou preso um grito uníssono no ar. Ficaram guardados, tristes, melancólicos, os foguetes que fariam a festa das pessoas e o horror de animais domésticos. O que se deve fazer quando o jogo acaba e nada aconteceu? Não abraçamos novos amigos. Não gritamos, não pulamos, não fomos para a Doca festejar. As famílias recolhem as cadeiras, alguém ainda quer uma saideira. Não te esquece de pagar amanhã a prestação, aquela lembra aquele, agora que nada aconteceu no jogo. Pagamos a conta? As crianças ficam quedas. As mulheres com rostos pintados de verde amarelo. Súbito, ficaram ridículas. Corre pra tirar isso da cara. De repente o lugar ficou deserto, triste. O que era festa virou sem graça. Não perdemos, não ganhamos. Sequer houve um gol. Alguns discutem a competência do técnico. Somos todos técnicos. Sabemos a melhor escalação, as substituições. Achamos um absurdo ter sido escalado este ou outro. Agora, olhamo-nos e não sabemos o que fazer. Uns beberam e agora precisam ir para casa. Hoje tem novela das oito? Outros decidem levar o cachorro para dar uma volta. Não há o que fazer. Tu não tens prova amanhã, menino? Aproveita e vai estudar! Ih, sabia que ia sobrar para mim. E tudo porque foi 0 x 0.

Como podemos parar um país inteiro? Onde vai parar a produção, os serviços? Aguardamos os comentaristas esportivos explicarem para concordarmos ou não? Deve haver países onde a Copa do Mundo também provoca toda essa paixão, mas não como aqui. Com o resultado, ficamos todos nervosos. Muito nervosos. Ah, esses meios de comunicação precisam me explicar muito bem. Me convidaram para uma festa de gols, alegria, comprovação de nossa invencibilidade. Em vez disso, o silêncio. Vamos assistir juntos o próximo jogo?

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