segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Direito nos EUA atravessa uma das suas maiores crises

Setor vive perda de vagas, e recém-formados não obtêm emprego; situação se
agravou após turbulência financeira

Maior escritório do país faliu em maio; em carta, diretor do curso de
direito em Columbia alerta para dificuldades

RAUL JUSTE LORES
DE NOVA YORK

A quantidade de recém-formados em direito que conseguem um emprego na área
nos EUA é a menor dos últimos 25 anos. O maior escritório de advocacia dos
EUA faliu em maio, e o diretor da Faculdade de Direito de Columbia
publicou uma carta aberta aos alunos alertando para as dificuldades
pós-diploma.

Os advogados americanos continuam a ter superpoderes e muito glamour nos
filmes de Hollywood, mas a profissão atravessa uma das maiores crises de
sua história no país.

Na década passada, cerca de 85% dos recém-formados conseguiam emprego na
área. Em 2010, 68%. Da turma que se formou em junho de 2011, apenas 55%
acharam colocação até nove meses depois da formatura.

A crise econômica iniciada em 2008 tem grande responsabilidade no
desempenho do setor, que já sofria com o inflacionamento de bônus e
salários de advogados após a fusão de grandes escritórios e com o
achatamento do salário inicial para os novatos.

Sob corte de gastos, grandes empresas passaram a contar mais com seus
próprios advogados ou a exigir valores cada vez menores ao recorrer aos
escritórios no mercado.

Segundo pesquisa da Universidade Northwestern, 15 mil empregos nos maiores
escritórios de advocacia desapareceram em quatro anos.

No final de maio, foi decretada a falência do maior escritório americano,
Dewey LeBoeuf, que tinha 1.400 advogados e uma dívida de US$ 315 milhões.

No ano passado, o escritório Howrey, de Washington, com 500 advogados,
também declarou falência.

Mas o número de recém-formados é de 43 mil por ano. Em 20 anos, 26 novas
faculdades de direito foram abertas. Cerca de 90% desses recém-formados
têm uma dívida de crédito estudantil acima de US$ 98 mil (R$ 197 mil). O
desemprego amplia a possibilidade de calote -nos EUA, o total das dívidas
com crédito estudantil chega a US$ 1 bilhão (R$ 2 bilhões).

"A faculdade de direito é muito lucrativa porque, em vários casos, só
depende de professor e giz, e formamos muito mais gente do que nosso
mercado de trabalho consegue absorver", disse à Folha o professor William
Henderson, da Universidade Indiana, que fez um trabalho sobre a crise das
faculdades com a American Bar Association, a OAB local.

"O negócio jurídico ainda movimenta quase US$ 400 bilhões neste país, mas
ele não tem crescido, o que dificulta a entrada dos mais jovens", explica.

Mesmo na Universidade Columbia, uma das melhores do país, o baque foi
sentido. Na turma de 2011, 74% dos alunos do segundo ano conseguiram
estágio, contra 92% no ano anterior.

Em carta aberta aos alunos, o diretor do curso de direito de Columbia,
David Schizer, diz que "nossos estudantes estão encarando um mercado
apertado como nunca antes".

Folha Online 17.09.2012.

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