segunda-feira, 25 de junho de 2012

ESCOLA DEMOCRÁTICA - Da Utopia a uma Realidade Possível

RESUMO
O presente artigo discute a relação entre a escola e a sua comunidade. Partindo de conceitos como democracia e identidade o trabalho estabelece um diálogo entre o que se espera da participação dos segmentos e como a escola organiza esse espaço na busca da democratização. O Projeto Político Pedagógico, quando elaborado em conjunto com todos os segmentos da escola, garantirá uma elaboração que seja, de fato, democrática. São eles: equipe diretiva, professores, funcionários e pais. Fica a critério de cada escola a criação de meios que aproximem os segmentos para que todos possam participar ativamente e efetivamente. Conclui-se que nesse contexto de democratização, a escola deve tentar construir a convivência de todos os segmentos da comunidade escolar, articulando os tempos e lugares de trocas e de encontros com o outro e suas diferenças. Um trabalho que necessita do suporte de políticas públicas e da parceria com as famílias.
Palavras-chave: Sociedade, participação, democracia, comunidade
Projeto Político Pedagógico
O Projeto Político Pedagógico das escolas é um grande avanço para educação, pois através dele se possibilita a organização dos trabalhos pedagógicos, a explicitação do compromisso com a formação de cidadãos e a garantia da participação de todos envolvidos na comunidade escolar.
A elaboração do Projeto Político Pedagógico é feita a partir do conhecimento da realidade da escola, por isso a importância de se ter todos os segmentos, que a formam, representados. A elaboração é feita de quatro em quatro anos, sendo reavaliado no decorrer desse tempo para se manter sempre adequado a realidade e aos interesses da
escola.

Na organização do Projeto consta o objetivo, a finalidade, os projetos que serão desenvolvidos pelos alunos, a organização do tempo/espaço, entre outros. Durante a construção do projeto fazem-se reuniões para a organização dos dados levantados pela pesquisa sobre as necessidades locais e específicas da escola.
Uma séria fundamentação sobre a realidade da escola na elaboração do Projeto Político Pedagógico é o que garantirá a qualidade do trabalho desenvolvido, voltado sempre para o máximo desenvolvimento dos alunos através de uma política participativa e democrática.

Comunidade Escolar
Comunidade é um conjunto de pessoas que se organizam e compartilham do mesmo legado cultural e histórico, associam-se para atingir determinados objetivos comuns.
O primeiro passo dessa "caminhada" ao encontro de uma escola, realmente democrática é reconhecer e compreender a importância de se conhecer a comunidade escolar como o ponto maior das relações humanas existentes entre escola e aluno.
Através da busca por referências, conhecemos o modo de vida da comunidade scolar, que às vezes é muito mais complexa do que imaginamos quando, simplesmente, olhamos para o aluno e não conseguimos ver nele a sua história.
A pesquisa nos trás muito mais que puro conhecimento. Ela nos leva a garantir espaços de aprendizagem que sejam reconhecidos pelos alunos como parte de suas vidas. Espaços esses que tragam os alunos e seus familiares a entenderem que a escola é muito mais do que "lições e notas".
Garantindo os direitos e deveres dessa comunidade, estaremos formando cidadãos conscientes de seu papel na sociedade, amplamente capazes de transformar e entender o quanto seus pensamentos e atos são importantes para o desenvolvimento de todos.
Lendo uma matéria na revista Nova Escola – Gestão Escolar, percebo o quando a questão da participação dos pais se torna cada vez mais importante na formação integral do aluno. Destaco esse trecho que reforça a importância dessa participação:
O relacionamento chega a ser ambíguo. Muitos gestores e docentes, embora no discurso reclamem da falta de participação dos pais na vida escolar dos filhos - com alguns até atribuindo a isso o baixo desempenho deles - não se mostram nada confortáveis quando algum membro da comunidade mais crítico cobra qualidade no ensino ou questiona alguma rotina da escola. Alguns diretores percebem essa atitude inclusive como uma intromissão e uma tentativa de comprometer a autoridade deles. Já a maioria dos pais, por sua vez, não participa mesmo. Alguns por não conhecer seus direitos. Outros porque não sabem como. E ainda há os que até tentaram, mas se isolaram, pois nas poucas experiências de aproximação não foram bem acolhidos e se retraíram. (CARVALHO. Maria do Carmo Brant de, coordenadora geral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo.)
Quanto mais referências tivermos sobre a comunidade, mais poderemos interagir com a cultura, seus hábitos e modos de organizarem seu cotidiano. Entra aí a importância do conhecimento do senso comum que muitas vezes é muito diferente do que conhecemos.

Escola Democrática
Uma educação voltada para a democracia deve oportunizar a discussão sobre as problemáticas existentes, para que, conscientes dessas problemáticas, todos os envolvidos ganhem a força e o valor para mudar a realidade, em vez de ser submetido ás idéias alheias. Educação que permita aos sujeitos estarem sempre em diálogo com o outro e que disponibilize as ferramentas para as revisões necessárias a esse processo de identificação e conhecimento.
"A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo."(FREIRE, Paulo Cartas à Cristina, 1994.)

Paulo Freire e Sérgio Guimarães, através de um diálogo muito enriquecedor e abrangente, apontam a linguagem como um dos problemas mais graves, pois acreditam que a linguagem usada pela escola está muito distante da usada pelos alunos.
Assim como o despreparo de professores que planejam suas aulas tratando seus alunos como se fosse um "depósito" de informações, não considerando suas experiências, vivências e anseios.
Outra questão muito importante, levantada pelos autores, é o fato da escola ainda estimular a passividade de seus alunos através de discursos autoritários.

"É o autoritarismo de transferência de um conhecimento parado, como se fosse um pacote que se estenda a criança em lugar de se convidar a criança a pensar e a aprender a aprender."
É como se educação fosse a transferência de conhecimento e não a construção, pois ainda hoje as escolas insistem em se colocar como uma instituição que esteja alheia ao mundo da criança, ignorando as características dessa comunidade na qual faz parte.

A escola parece confortável com a imobilidade de seus alunos e muitas vezes de seus professores que não questionam, não pensam e não discutem as práticas existentes.

No debate com todos, muitos desses problemas passariam a ser realmente reconhecido um pelo outro, e as soluções planejadas em comum, e a supervisão - ai sim – teria a tarefa pedagógica, teórica.
Os professores devem assumir o papel de participantes e não de detentores do saber.

Organizando atividades juntamente com seus alunos e orientando esse processo de aprendizagem de maneira que o "aprender fazendo" seja o principio que norteie as suas aulas. Mais do que desenvolver habilidades cognitivas, o professor tem a responsabilidade no "aprender a aprender", pois a criança é agente da sua própria aprendizagem.
Incentivar seus alunos na resolução de problemas, estimular esse aluno a confiar nas suas próprias potencialidades através de atividades de pesquisa e exploração num processo que seja realmente significativo pra ele.

Já defendia Piaget que o homem é capaz de estabelecer normas de conduta de acordo com as circunstâncias e conviver com a incerteza. Os programadores e executores fazem parte da mesma equipe desse planejamento que procura envolver todos os elementos relacionados ao ato de educar: alunos, professores, dirigentes, pais, funcionários, pais e membros da comunidade. Como se pode notar esse tipo de sistema atende ao princípio básico da democracia, que é o da igualdade de direitos de todos os indivíduos em termos de propostas, discussões e escolhas.

A palavra-chave para a construção da democracia nas escolas é AUTONOMIA. Quando alunos são incentivados a exercê-la em todo o processo de construção da sua aprendizagem, desde muito pequenos, exercitando uma liberdade que exige a responsabilidade, que sua liberdade começa onde começa a liberdade do outro, estarão vivendo sua autonomia e assim aprendem a serem autônomos.

O professor primário nem sempre está colocado numa perspectiva que é a do educador que pensa os problemas da educação; ele é muito mais um operário do dia-a-dia da escola, em que os problemas de nota, de disciplina, de organização
escolar, de planos de aula, é que vêm em primeiro plano.

Uma escola democrática é uma escola que se baseia em princípios democráticos, em especial na democracia participativa, dando direitos de participação para estudantes, professores e funcionários. Esse ambiente de ensino coloca os alunos como atores centrais do processo educacional, os educadores participam facilitando as atividades de acordo com os interesses dos estudantes.

Para Paulo Freire3 os professores não devem esperar que a sociedade ou até mesmo a escola se democratize pra então, começar a democratizar os conteúdos e a sua maneira de dar aulas. "Os profissionais da educação não podem ser autoritários hoje e democratas amanhã". A maneira de tratar os conteúdos e a escolha dos mesmos deveriam resultar da decisão conjunta de todos os segmentos envolvidos, professores, pais, alunos, direção e funcionários.

Quando os professores se derem conta de que suas atribuições são políticas e não apenas técnicas, ai então passarão a planejarem suas aulas para cada um de seus alunos e ao mesmo tempo para todos, levando em conta o contexto em que vivem e o perfil da comunidade a qual pertencem.

Com isso, irão formar turmas de "seres pensantes", de crianças que crescerão entendendo a sua realidade e suas necessidades e futuramente serão cidadãos capazes de planejar e efetuar mudanças na sua própria vida e na vida da comunidade da qual fazem parte.

Considera Freire, que os regimes democráticos nutrem-se da mudança, são flexíveis e inquietos, e por isso mesmo exigem do homem tais características. Assim a educação deve ser um intento constante de mudar de atitude, de substituir hábitos antigos de passividade por novos hábitos de participação e ingerência requeridos pelo contexto de transitividade. Por isso sua concepção enfatiza a importância de uma postura não ingênua perante os acontecimentos, e a necessidade de uma educação dialogal e ativa, orientada para a responsabilidade social e política caracterizada pela profundidade na interpretação dos problemas e livre de explicações mágicas.

As escolas democráticas são marcadas pela participação geral nas questões administrativas e de elaboração de políticas. As Assembleias para tomadas de decisões não incluem apenas educadores profissionais, mas também os educandos, seus pais e outros membros da comunidade escolar. Nas salas de aula, os jovens e os professores envolvem-se no planejamento cooperativo, chegando a decisões que respondem ás preocupações, aspirações e interesses de ambas as partes. Esse tipo de planejamento democrático, tanto no âmbito da escola quanto da sala de aula, não é unânime para
chegar a decisões predeterminadas que muitas vezes tem criado ilusão de democracia, mas uma tentativa de respeitar o direito das pessoas participarem na tomada de decisões que afetam sua vida.

As escolas democráticas não consideram as diferenças como um problema, bem pelo contrário, valorizam essa diversidade. Essas comunidades incluem pessoas que refletem diferenças de idade, cultura, etnia, sexo, classe socioeconômica, aspirações e capacidades. A comunidade se sente enriquecida pois aprende a considerar todas as opiniões como colaboração pro desenvolvimento da mesma.

As escolas democráticas não buscam somente amenizar as desigualdades sócias na escola, mas mudar as condições que a geram. Numa escola democrática não há barreiras educacionais, eliminam-se a formação de grupos com base na capacidade dos alunos, provas preconceituosas e outras iniciativas que tantas vezes impedem o acesso e
permanências de todos na escola, proporcionando um ensino de qualidade para todos, sem exclusão.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que foi implantada em 1996 possibilitou as mudanças necessárias para a democratização das escolas, pois cada escola tem autonomia para escolher sua maneira de trabalhar. Agora com o paradigma da inclusão essas escolas passam a ser não só uma utopia, mas a possibilidade de uma escola de qualidade que contemple a diversidade humana.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma escola de qualidade ,que trata o aluno como o principal agente de sua aprendizagem, que respeita todos os indivíduos, aceitando suas diferenças e limitações, parece não existir, mas essa proposta de modificar todo o sistema de ensino vem de encontro com a escola sonhada por todos.

A construção de um ambiente ético que ultrapasse os tempos, os espaços e as relações escolares vem se impondo como uma ferramenta importante para que a educação seja ressignificada na contemporaneidade. Ganha força, hoje em dia, o pressuposto de que a educação não pode mais ficar limitada aos muros escolares, mas deve se estender ao bairro e à comunidade aos quais atende, incluindo as relações com as famílias dos estudantes e as demais pessoas que convivem no entorno. (Programa Ética e Cidadania)

Uma escola que apresenta uma nova concepção para a educação rompendo todos os princípios de uma escola tradicional, partindo do princípio máximo de que não é e nunca será possível educar a todos como se fossem iguais, é essa escola que queremos.

A democracia permeia todos os princípios da educação democrática, a comunidade escolar como um todo decide e compartilha todos os problemas e progressos da instituição, e os alunos como protagonistas dessa instituição aprendem todo o conteúdo previsto nos parâmetros que regem a educação no país, e principalmente os princípios democráticos, contribuindo para a democratização de toda a sociedade.

Uma escola tem que valorizar a diversidade, com base numa democracia solidária que visa a participação de todos através da interação social, reformulando o conceito de diferença e abandonando o conceito de homogeneidade.
Uma escola tem que ser inclusiva, tem que atender as diferenças de seus alunos sem discriminar, visando a aprendizagem individual e valorizando a maneira que cada um tem de construir sua aprendizagem.
 
Fabiane Fraga Sum - Estudante do curso de Licenciatura de Pedagogia a distancia (LPD), da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) do Polo de Balneário Pinhal.
E-mail: ffsum@hotmail.com
 

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