segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ciência, tecnologia e produtividade do trabalho


Existe alguma relação entre Ciência, Tecnologia, Inovação (CT&I) e produtividade do trabalho? Se uma elevação no gasto em CT&I conseguir elevar a produtividade do trabalho, então se pode ser inferido que a ampliação deste tipo de gasto aumenta o crescimento econômico. Nos últimos 50 anos o produto per capita da economia americana cresceu em média acima de 2,0 % ao ano. Retrocedendo para o final do século XIX, encontraríamos taxas de crescimentos similares. O mesmo aplica-se aos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), bem como a diversos países asiáticos de crescimento rápido. Mesmo as economias latino-americanas - que tiveram um momento muito difícil nos anos 80 - cresceram em média em torno de 1,5% ao ano nos últimos 50 anos e 1,1% se fosse considerado o período de 1970 até 2000.
Para uma amostra de mais de cem países, a média aritmética das produtividades do trabalho cresceu de 1970 até 2000 cerca de 1,2% ao ano, apresentando para alguns grupos de economias valores bem diferentes. Por exemplo, nas economias do leste asiático, a produtividade do trabalho cresceu 3,5% ao ano, enquanto que na China cresceu 6,5% ao ano, no mesmo período. A elevação da produtividade do trabalho é o motor do crescimento de longo prazo. Consequentemente, entender o crescimento de longo prazo das economias é equivalente a entender o crescimento da produtividade do trabalho.
A produtividade do trabalho pode crescer por quatro motivos:
a) O primeiro, o aumento do grau de capitalização da economia, advindo da elevação da relação capital-trabalho. Um trabalhador com maior dotação de máquinas e capital em geral produzirá, por hora, uma maior quantidade de bens;
b) O segundo, o aumento do nível de escolaridade dos trabalhadores que eleva a produtividade do trabalho. Inúmeros estudos têm demonstrado que cada ano a mais de escolaridade cresce a produtividade do trabalhador em aproximadamente 10%;
c) Terceiro, a produtividade do trabalho média da economia que aumenta se a eficiência alocativa da economia melhorar. Vale ressaltar que se refere a toda e qualquer alteração institucional que estimule atividades produtivas e desestimule atividades improdutivas.
Todos os três fatores - elevação do grau de capitalização da economia, elevação da escolaridade da população de trabalhadores e a elevação da eficiência alocativa da economia - apresentam limites. Isto é, eles não são capazes de sustentarem por si só um crescimento ilimitado da produtividade do trabalho.
Nos últimos 54 anos a relação capital-trabalho nos Estados Unidos da América, que já era elevada, triplicou! Isto é, aquela economia que para qualquer padrão apresentava em 1950 níveis elevadíssimos de capitalização foi capaz de triplicar a quantidade de máquinas que cada trabalhador tinha à sua disposição para operar. Como foi possível? Por que a economia americana não se atolou no excesso de capital como foi o caso, por exemplo, da União Soviética a partir da década de 60?
d) A resposta a esta questão está no quarto e fundamental fator: a criação de inovação e conhecimento que se difundem pela economia. A evolução tecnológica, com a criação de novos processos e novos produtos, é o grande antídoto à superacumulação de fatores de produção, capital e educação, que leva ao esgotamento do crescimento econômico. O crescimento econômico não cessa se vier acompanhado de melhoria tecnológica. Essencialmente, há uma tendência ilimitada para o crescimento da produtividade do trabalho, pois o conhecimento acumula. É este quarto fator que, quando associado ao grau de capitalização, ao nível de educação e ao aprimoramento da eficiência alocativa, concorre para elevar a produtividade do trabalho. E, de todos estes quatro fatores, é o único que, aparentemente, ao menos, não registra sinais claros de limitação.
A lição histórica nos adverte asperamente contra as crendices das soluções fáceis, bem ao estilo populista - do tipo “capinar sentado”-, como juro eternamente baixo e gasto público amplo, geral e irrestrito, e nos lembra que procurar a porta estreita (acumulação do capital intangível - conhecimento) é o caminho mais árduo, porém é o mais seguro e duradouro. A Conferência Rio+20 parece ser o local apropriado para este tipo de reflexão.

Mário Ramos Ribeiro, doutor em Economia pela USP, docente da UFPA, presidente da FUNDAÇÃO AMAZÔNIA PARAENSE DE AMPARO À PESQUISA - FAPESPA.

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