sábado, 14 de abril de 2012

Rio+20: A falta que faz a fagulha da consciência humana

A proximidade da Rio+20 enseja um novo momentum para a humanidade. É quando, ao menos oficialmente, os mais importantes tópicos que visam a sobrevivência da nossa espécie retornam à “ordem do dia”, tomam vida e voltam a respirar dentro da agenda mundial.
Washington Araújo
E assim se passaram vinte anos desde que o Rio de Janeiro sediou em 1992 a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92). E após o megaevento vimos se realizar o ciclo social de conferências das Nações Unidas que foi uma maneira encontrada pela Nações Unidas para manter na agenda a discussão dos problemas globais que afetam a humanidade. O principal resultado dessas iniciativas foi a celebração de diversos pactos entre as nações com medidas para enfrentá-los, e dos quais destaco por sua importância as Convenções sobre Mudanças Climáticas, Biodiversidade, Desertificação, a Agenda 21, Carta da Terra, Declaração sobre Florestas, Declaração de Durban. 

Embora tenha sido este o período em que mais se afirmou o princípio da interdependência das nações e ficou muito bem estabelecido que, como habitantes de um único planeta, temos um destino comum a partilhar, um futuro comum a construir, a verdade é que o tema ficou muito longe de empolgar os meios de comunicação que, de forma quase generalizada, optou por circunscrever tanto os eventos quanto os compromissos internacionais assumidos, como assuntos de somenos importância, afetos aos militantes verdes, às organizações da sociedade civil comprometidas com causas universais e aos movimentos alternativos formulando novos modelos para desenvolvimento sustentável. E não passou muito disso. A eterna luta pelo poder nos vários países, os movimentos político-eleitorais com o sobe-e-desce entre direita e esquerda e também os vãos e desvãos da economia internacional receberam cobertura quase que automática, como se o papel da imprensa não fosse outro que não o de assegurar a manutenção do status quo planetário.
 

A agenda midiática preferiu ocupar-se da matéria-presente a ousar alinhavar o futuro. É como se a melhoria das condições climáticas do planeta, a preservação de sua biodiversidade e o estancamento dos processos de desertificação que enfermam a Terra fosse “business” dos setores da vida organizada das sociedades. E, agindo assim, manteve ao largo imensas parcelas da sociedade do cerne das discussões, alheia aos processos postos em movimento pelas Nações Unidas e, de certa forma, completamente no breu da insana ignorância quanto ao que realmente importa – a forma como desejamos escrever o nosso futuro.

A par dessa falta de engajamento dos meios de comunicação que, em uma primeira análise, teria o poder de fazer aterrissar tão formidável agenda ao rés do chão do senso comum, informação fluindo como água corrente dentre os vários espectros da sociedade, o mais dramático nesses anos que vão de 1992 a 2012 é a drástica constatação de que aquilo que deveria ter sido o início da reversão das situações de miséria, injustiça social e degradação ambiental frustrou boa parte das esperanças depositadas nesse processo. E, quando pensávamos que a situação mundial não poderia piorar mais, vimos o quão errados estávamos: sete bilhões de seres humanos vivem hoje as seqüelas da maior crise capitalista desde a de 1929, observam como que impotentes o aumento gigantesco da desigualdade social e da pobreza extrema, com a fome afligindo diretamente um bilhão de pessoas. E, como se não bastasse, presenciam guerras e situações de violência endêmica e o crescimento do racismo e da xenofobia, a violação sistemática dos direitos humanos das minorias religiosas e étnicas.

A proximidade da Rio+20 enseja um novo momentum para a humanidade. É quando, ao menos oficialmente, os mais importantes tópicos que visam a sobrevivência da nossa espécie retornam à “ordem do dia”, tomam vida e voltam a respirar dentro da agenda mundial. E é um chamamento poderoso – penso – para que a imprensa informe à sociedade, com clareza e senso de urgência a natureza dos debates, o perfil dos planos de ações pactuados, a característica das principais estratégias de desenvolvimento sustentável acordados entre o muitos atores sociais – o papel dos governos na mobilização da sociedade civil para, juntos, traduzir a letra fria dos documentos protocolares e diplomáticos para o chão duro da realidade, transformando-os em sementes que possam germinar na terra e nas mentes de homens e mulheres que conseguem identificar no horizonte de suas vidas as silhuetas de novas gerações despontando.

O véu de ignorância que por tantos decênios encobriu a percepção que o sistema de produção e consumo capitalista, representado pelas grandes corporações, mercados financeiros e os governos que asseguram a sua manutenção, não apenas produz como vem aprofundar o aquecimento global e as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a escassez de água potável, o aumento da desertificação dos solos e da acidificação dos mares, em resumo, a insensata e quase palpável, vista a olho nu, mercantilização de todas as dimensões da vida. É impressionante observar como todas as realidades da vida estão intimamente ligadas, assim como o corpo humano, há que se entender que o que infelicita a parte infelicita o todo: se o dedo mindinho está infeccionado, o corpo todo geme, sofre, padece. E isto encontrá-se a anos-luz do mero debate, quase sempre rasteiro e superficial, entre as diversas ideologias, os vários sistemas econômicos, a muitas concepções políticas sobre o Estado. A imprensa, e aqui a vejo como uma realidade abarcadora, tem inegável protagonismo em favorecer debate mais sólido, robusto e arejado não tão-somente na identificação dos problemas e sim, na formulação de soluções que contemplem o todo e não apenas as partes.

Quando iremos entender que vivenciamos uma crise civilizatória inédita, onde governos, instituições internacionais, corporações e amplos setores das sociedades nacionais, encontram-se firmemente presos ao que é imediato e descartável e profundamente cegos ao futuro, agarrando-se como náufragos a tábuas de salvação que já não conseguem mais flutuar, que bem representam os presentes modelo de economia, governança e valores ultrapassado e paralisante com que lidamos diuturnamente. Paralisante porque a cada novo avanço em direção a identificação da essência dos problemas, perdemo-nos em novos conflitos, mas conflitos comezinhos, em repetidas guerras dos que muito podem contra os que nada podem, com o quase indisfarçável intuito de apenas alavancar a comercialização dos meios de destruição concebidos tenazmente pela indústria bélica dos países considerados – ainda – os mais desenvolvidos do planeta.
 

Longe do cercadinho ideológico que nos tentam imputar, é chegado o momento de ver a situação real em que o mundo se encontra. E o mundo se mostra presa fácil de uma economia capitalista, guiada pelo mercado financeiro global, continuamente comprometido com a busca ilimitada pelo lucro, apoiando a superexploração do trabalho – em especial o trabalho das mulheres e dos setores mais fragilizados da sociedade –, e ainda levando à fornalha de sua insaciável fábrica de miséria a queima dos combustíveis fósseis e a irrefreável corrida pela predação dos ecossistemas.
 

As grandes tragédias humanas e ambientais nascem no pensamento humano e quando o desenvolvimento é igualado ao crescimento, na produção pela produção – baseada na descartabilidade e no desperdício e sem consideração pela qualidade da existência vivida, temos exatamente o que temos: um mundo travado, imerso em longo período comatoso, respirando por aparelhos completamente despojados de seu principal sinal vital – a fagulha da consciência humana, a luz do espírito.

É nesta conjuntura e neste valioso momento político ensejado pela Rio+20 que temos uma oportunidade única para “recriar o mundo”, apontando saídas, as menos sofridas e turbulentas possíveis para o perigoso bem sem saída a que estamos sendo conduzidos.
 

Seria pieguice de minha parte, a julgar pela ação dos atores hegemônicos do sistema internacional e pela mediocridade dos acordos internacionais negociados nos últimos anos, suas falsas soluções e a negligência de princípios já acordados na Rio92, imaginar que o evento em si seja poderoso o suficiente para relançar um ciclo virtuoso de negociações e compromissos duradouros para enfrentar os graves problemas com que se defronta a vida no planeta. Porque entendo que tudo está dentro do planeta. Porque percebo que nada “está fora” do planeta. Tudo está dentro.

Daí que temos que continuar persistindo uma e outra vez mais na luta pelo que é justo, lídimo, necessário, vital e urgente para amenizar a árdua caminhada em nossa velha e sempre muito preciosa terra de granito. E se antes havia recusado convites para estar na Rio+20, agora me sinto ‘empoderado o suficiente’ para nela participar... salvo alguma recaída de última hora.

Insisto uma vez mais: Nada está ‘fora” do planeta simplesmente porque o tudo está “dentro” do planeta.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com

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