domingo, 18 de julho de 2010

“A mágica virtude que tem uma Carta de Bacharel”

No dia 16 de julho, a tese de Adelina Novaes, “Por uma análise psicossocial dos cursos de Direito”, foi aprovada com grau máximo no Doutorado em Psicologia da Educação da PUC/SP. Depois de demonstrar que as Faculdades de Direito foram criadas no Brasil, logo após a independência, para formar a elite dirigente e criar representações próprias do país, a pesquisa passou a averiguar se, atualmente, os cursos de Direito ainda mantêm tal finalidade, e se é por esta razão que os alunos decidem estudar Direito. Assim, em 2006, Adelina pediu a duas turmas de um curso de Direito “cuspe e giz”, da Zona Leste de São Paulo, que, sobre uma folha em branco, desenhassem o mapa do Brasil. Além disso, pediu que escrevessem algumas palavras sobre o Brasil e sobre ser brasileiro. Ela estava diante de alunos trabalhadores, com família para sustentar, numa faixa etária de 21 a 50 anos, que declararam não ter o hábito de ler ou ir ao cinema. Três anos depois, Adelina retornou ao curso e realizou entrevistas com os estudantes que sobraram destas turmas (a maioria evadiu ou migrou para outras universidades ainda mais baratas). O material colhido por Adelina é fascinante e devastador. Os desenhos revelam uma motricidade atrofiada: parecem rabiscos de crianças de 5 anos. O Brasil aparece solto na folha. Nenhum aluno referiu uma fronteira sequer, o que levou Adelina à metáfora da jangada de pedra: para eles, o Brasil não faz parte do mundo – aliás, que mundo? As palavras mais referidas sobre o Brasil são carnaval e futebol; sobre o brasileiro, alegre e batalhador. Corrigindo: a mulher brasileira é apresentada como batalhadora - parece que os homens afirmam-se neste imaginário como ”cuzões” (lembrei da fala de uma personagem do filme “Sonhos Roubados”, recuperada na crônica de Contardo Calligaris Novas Mulheres). Sobre a razão para estudar Direito, num país que tem 638.741 estudantes de Direito matriculados em 1080 cursos (Censo de 2008), prevaleceria ainda a idéia de D. Romualdo Seixas, da “mágica virtude que tem uma Carta de Bacharel, que transforma os que têm a fortuna de alcançá-la em homens enciclopédicos e aptos para tudo”? Sim e não. A autora analisa minuciosamente as imagens e as palavras, com ajuda de um arsenal teórico valioso, sob a orientação segura de Clarilza Prado de Souza, uma craque em pesquisas deste tipo. Constrói uma crítica implacável da educação jurídica no Brasil e chega a suculentas conclusões que não mencionarei, pois seria como contar o fim de um filme muito bom – afinal, participar desta banca foi um dos grandes prazeres da minha carreira. Aguardem, então, a publicação da tese. Só adianto aqui no blog:

1) este ”mapa do Brasil” em que a linha pontilhada do coração representa, segundo a aluna que o desenhou, a dúvida que macula o seu amor pelo país; 2) e uma frase de Adel em sua conclusão: “os cursos de direito poderiam tomar a frente e empreender novos rumos, novas trajetórias, novas construções para fazer do profissional de direito um protagonista social, nos termos – mas provavelmente não na forma – das aspirações daqueles que iniciaram os cursos de Direito no Brasil”. Chapeau, Madame ! (Deisy Ventura, IRI/USP).

Dispoinível em: http://educarparaomundo.wordpress.com/2010/07/18/a-magica-virtude-que-tem-uma-carta-de-bacharel/ Acesso em 19 de Julho de 2010.

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