quarta-feira, 1 de julho de 2015

A quem interessa a restrição de publicidade na advocacia?

Proposta sobre o novo Código de Ética da OAB restringe ainda mais a publicidade na advocacia, especialmente nas redes sociais.

O Pleno do Conselho Federal da OAB começou este mês a discutir sobre a publicidade na proposta do novo código de ética e disciplina da OAB, e o andamento não agradou a jovem advocacia.
Isto porque a proposta restringe de forma aguda o marketing nas redes sociais. Contudo, a proposta foi alvo de tantas críticas, que o presidente Marcus Vinícius Furtado Coelho adiou o debate para a próxima reunião do pleno.
A tal proposta é a de que os escritório só podem manter sites próprios. Repita-se: só podem manter sites próprios!
Todas as demais formas de divulgação ficariam proibidas. Ou seja, páginas em redes sociais, patrocínio de eventos jurídicos ou acadêmicos, espaços em veículos de comunicação, nada, somente o site próprio.
A quem interessa a restrio de publicidade na advocaciaA regra seria mais restritiva da atual, exatamente a mesma que se pretende reformar.
A restrição de publicidade interessa somente aos grandes escritórios e a advogados já consolidados, pelo simples motivo de que o marketing digital aproxima as chances de mercado entre grandes bancas, advogados de renome e jovens advogados, uma vez que o custo para se fazer um bom trabalho de marketing não é alto, e se requer muito mais criatividade do que recursos financeiros.
Hoje, milhares de jovens ganham dinheiro através das mídias sociais usando sua criatividade, promovendo seus produtos e serviços. Mas aquele jovem que escolheu a advocacia está excluído dessa possibilidade, e de acordo com essa proposta, ficará eternizado nos anos 80.
Hoje o modelo de publicidade e divulgação é muito ruim para quem está entrando no mercado, e a proposta como foi apresentada não é diferente. Além disso, ela vai na contramão do momento digital que estamos vivendo. O mundo mudou, e a OAB precisa enxergar isso.
A ideia que se tem de propostas como essa é a de que ninguém pode divulgar nada pela internet para que estejamos num mesmo nível de competitividade. Assim, grandes escritórios nunca serão ameaçados pelos jovens advogados, que podem ser mais criativos, destemidos e também prestam bons serviços.
O que eles querem com isso? Colocar o recém aprovado na OAB na mesma roda que passaram, levando anos e anos para terem sua carta de clientes, seus processos começarem a dar resultados e com o passar do tempo ganharem destaque. Tempo este que poderia ser reduzido consideravelmente utilizando a internet.
A OAB precisa entender que o mundo digital é uma realidade, tanto que o processo digital está aí. É aqui na grande rede que as pessoas estão, as pessoas buscam auxílio pelas redes, reclamam. As grandes empresas criaram setores para atender seus clientes, ouvir reclamações e vender produtos através das redes sociais.
Restringir o acesso de jovens advogados ao mundo digital, seria o mesmo que condená-los ao insucesso profissional. É preciso pensar e discutir muito essa proposta.
Qual alternativa restaria para os advogados iniciantes? Distribuir cartões de visita na estação do metrô? Ficar de plantão na porta da delegacia? Ok, depois que conseguir o primeiro cliente ele pode ir para o seu escritório redigir a petição em uma máquina de escrever da Olivetti.
Advogado
Advogado, fundador do R2P Advocacia Inteligente - www.r2p.adv.br - Especialista em Direito e Processo do Trabalho - Conselheiro do CCJA da OAB/BA - Ex-Presidente da OAB Jovem/RJ - 13ª Subseção
Fonte: http://gppaschoal.jusbrasil.com.br/artigos/203669918/a-quem-interessa-a-restricao-de-publicidade-na-advocacia?utm_campaign=newsletter-daily_20150701_1406&utm_medium=email&utm_source=newsletter Acesso em 01 de Julho de 2015. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Você acha que Advogados são caros?

Quem de nós nunca ouviu alguém reclamar sobre os altos custos em se contratar um advogado? E quantos também nunca se perguntaram o porquê de honorários tão altos em determinados casos? Este é um dos maiores dilemas envolvendo a profissão da Advocacia atual, por isso a importância de refletirmos a origem do valor dos serviços jurídicos hoje em dia.
Tempo e recursos investidos para se obter um diploma, custos para manter o escritório, e até mesmo o tempo de trabalho envolvido em cada caso, são apenas alguns dos fatores que contribuem para a determinação do valor de um serviço jurídico. Entretanto, poucos clientes realmente sabem as responsabilidades envolvidas quando seu advogado assina um contrato de honorários. Na verdade, enquanto um cliente deseja apenas se livrar da prisão, analisar um contrato ou solicitar seu divórcio, automaticamente seu advogado se compromete a muito mais.
Ao assinar o contrato com o cliente, a ideia a se considerar é a de que o problema do cliente passa a ser o problema do advogado. Enquanto o cliente chega em casa e dorme tranquilamente após dias ou mesmo meses, seu advogado chega em casa e passa a noite solucionando problemas jurídicos ou pontos importantes daquele caso. Aos fins de semana, em jantares, durante a noite, ao brincar com os filhos, o advogado nunca para de trabalhar.
Advogados são caros, pois você paga por muito mais do que imagina!
Outros podem pensar que após a conclusão do curso de Direito e a aprovação no Exame de Ordem o advogado está pronto para o que der e vier... Nada disso! Advogados nunca param de estudar, em partes por que a legislação está em constante mudança, e também por que cada caso é único. Apesar de similaridades e semelhanças entre clientes ou casos, a cada novo caso começa-se o trabalho do início.
Há de se mencionar ainda a existência de um mercado profissional extremamente saturado, com mais profissionais se formando a cada dia. Isto faz com que o advogado tenha que se aperfeiçoar, buscando sempre cursos de especialização, congressos, conferências e outras atividades que contribuam para sua expertise no ramo, o que também requer investimentos e dedicação.
E que tal pensarmos sobre a importância da profissão em nosso país? A própriaConstituição Federal, expoente máximo da justiça e da estruturação governamental no Brasil, nos diz em seu Art. 133 que “O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei”. Simplesmente imaginemos como poderíamos defender nossos direitos contra abusos cometidos por terceiros (e por que não pelo próprio Estado?) se não fossem pelos Advogados, agentes da justiça e igualdade?
A partir daí, começamos a ter uma noção da relevância do advogado em nossas vidas. Ouso até dizer que se você nunca contratou os serviços de um advogado, provavelmente ainda precisará de algum no futuro...
Agora, refaço a pergunta, já que talvez suas ideias sobre o tema tenham mudado um pouco: e aí, ainda acha que advogados são caros?
Advogado
Advogado, Administrador. Bacharel em Direito (Faculdade Pitágoras) e em Administração (Universidade Federal de Uberlândia). Autor do blog Informante Jurídico (www.seuinformantejuridico.blogspot.com). OAB/MG 150.054
Fonte: http://romesjrsilva.jusbrasil.com.br/artigos/199493958/voce-acha-que-advogados-sao-caros?utm_campaign=newsletter-daily_20150618_1337&utm_medium=email&utm_source=newsletter Acesso em 20.06.2015. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

A vida e o Direito: breve manual de instruções

Patrono da turma de 2014 da faculdade de Direito da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, proferiu emocionante discurso com reflexões essenciais relacionadas à vida e ao Direito. 
 
A vida e o Direito: breve manual de instruções
I. Introdução

Eu poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão apaixonados pela própria voz.

Por isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado pelos valores que compartilhamos.

É lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém, não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais ligadas à vida e ao Direito.

II. A regra nº 1

No nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado "caso do arremesso de anão". Como se lembrarão, em uma localidade próxima a Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito Municipal interditou a atividade.

Após recursos, idas e vindas, o Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião, dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a história não havia terminado ainda.

E em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU, procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.

Pela primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia esquecido e invisível.

Após eu narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir os dois lados.

III. A regra nº 2

Nós vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: "Não é que eu nunca tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar, percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto: Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida". Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo, você está aqui, deveria ter passado a acreditar". E o ateu responde: "Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida". Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre como interpretá-los.

Quem está certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o outro.

Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.

IV. A regra nº 3

Uma vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes. Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O sábio fez um ar sombrio e exclamou: "Uma desgraça, Majestade. Os dentes perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os seus parentes". Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio. Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: "Vejo uma grande felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus parentes". Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para o segundo sábio e lhe diz: "Não consigo entender. Sua resposta foi exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi premiado". Ao que o segundo sábio respondeu: "a diferença não está no que eu falei, mas em como falei".

Pois assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em papel suave, que revele consideração pelo outro.

Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.

V. A regra nº 4

Nós vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção. Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua própria recompensa.

Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.

VI. A regra nº 5
Em uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor, vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.

Em quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é pertinente aqui. "As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las. Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito, não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é preciso agradecer".

Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

VII. Conclusão

Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:
1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;
2. A verdade não tem dono;
3. O modo como se fala faz toda a diferença;
4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;
5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
Aqui nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu afeto:
(i) Fique vivo;
(ii) Fique inteiro;
(iii) Seja bom-caráter;
(iv) Seja educado; e
(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.
Vão em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da advertência inspirada de Disraeli: "A vida é muito curta para ser pequena".


Texto originalmente publicado no site Consultor Jurídico que certamente é uma leitura que inspira doo profissional do Direito. Não poderia se esperar outra coisa de Luís Roberto Barroso. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

O impeachment como produto de consumo - por Rizzatto Nunes

Fonte: Migalhas
Como disse mais de uma vez nesta coluna, o capitalismo é uma ideologia "neutra" no sentido de que não se incomoda com nenhum modo de pensamento, desde que sua instrumentalização e/ou utilização possa gerar lucro. Os modelos de produção e oferta capitalistas estão nas igrejas, nas escolas, nos esportes "amadores", etc.
Na política, faz tempo que aportou. Os candidatos foram transformados em produtos muito bem desenhados por seus marqueteiros; eles são apresentados numa embalagem vendável e que o cidadão-consumidor pode comprar pagando com seu voto nas urnas; a publicidade nas campanhas muitas vezes é enganosa (e até abusiva), embora não se possa enquadrá-la nas regras do Código de Defesa do Consumidor; as campanhas geram produtos massificados de todos os tipos: camisetas, chaveiros, santinhos, brindes, comícios, etc.
E agora, o modelo capitalista chegou às manifestações de rua e aos pedidos de impeachment. Não sei se é uma boa notícia ou não, mas o fato é que chegou. Na época em que as manifestações de rua pediram a saída do presidente Collor (1992), a produção capitalista em relação ao tema, apesar de existente, não estava exatamente no mercado. Os produtos e movimentos foram bancados por entidades tradicionais como a OAB, a CUT, a UNE, etc. Eram elas que encomendavam camisetas, faixas, etc. O mesmo se deu num movimento similar do "Fora FHC" (de 1998). (Por falar em FHC, veja-se o poder do mercado e das redes sociais típicas: há alguns dias o ex-presidente Fernando Henrique brincou nas redes com um meme de si mesmo, na qual aparecia sorrindo, segurando uma nota de R$2,00 e um cartaz escrito "Foi FHC"1).
Como eu disse, o impeachment virou produto de consumo. Em lojas virtuais e físicas é possível comprar uma série de produtos de linha intitulada "anti-Dilma" ou "Anti-PT". A loja virtual "Prol Art"2, por exemplo, oferece camisetas, bonés, chapéus, moletons e canecas. E deixa claro que os produtos são de qualidade para resistir, digamos, aos esforços de usá-los numa passeata: "Camisetas 100% algodão evita o mau cheiro causado pelo suor devido a composição em outros tipos de tecidos, nossa malha é penteada e o fio de sua trama é o 30.1 é o melhor tipo de tecido existente hoje no ramo têxtil no Brasil"3. Uma camiseta custa R$50,00 e é oferecida em várias cores e tamanhos.
Mas, há produtos mais sofisticados. A grife Sergio K., com lojas em shoppings da capital de São Paulo e também em Campinas, Brasília e Belo Horizonte vende uma camiseta com a frase "Eu não tenho culpa. Votei no Aécio", que custa R$100,004.
Alguém poderia perguntar: é isso mesmo? O capitalismo está dando sua força? Mas, teríamos de reperguntar: força para quem?
Na realidade, penso que, o modelo capitalista está colocado à disposição de qualquer pessoa que dele queira se utilizar. Tanto faz o que a pessoa pense ou qual sua posição ideológica, nem se é a favor ou contra o governo de plantão ou passado. O que importa é produzir, oferecer, vender e faturar. Se os políticos caem, sobem, mudam, renunciam, etc. Não é relevante, desde que, claro, o regime econômico (capitalista) permaneça.
Meu caro, leitor, a realidade anda bastante confusa, com tudo o que está acontecendo no Brasil, com as denúncias de corrupção, a crise política, a estagnação da economia, a violência urbana endêmica, etc. E, ao que parece, a população encontra-se aturdida. Alguns pedem a volta da ditadura.
Ainda não vi escrito em camisetas. Será que há no mercado?
Para responder a pergunta, fiz uma busca na internet e o mais próximo que encontrei, foram camisetas do pessoal da "direita", como se intitulam5. E que, apesar de dizerem que não conhecem a ditadura militar brasileira, vendem camisetas com a seguinte estampa: "Vivemos uma ditadura de esquerda".
Os proprietários dizem que não sabem nada da ditadura brasileira: "Não tenho muito conhecimento, na verdade, de ditadura militar. Talvez tenha que perguntar para alguém que estudou história"6. Mas, confessam que o que importa mesmo é faturar: "Antes de tudo, a gente quer é vender. Vai ter racista usando a nossa camiseta, homofóbicos e defensores da ditadura militar. Não quer dizer que acreditamos nisso. A palavra que nos norteia é a liberdade. Mas não podemos controlar quem compra os nossos produtos"7.
Mas, então, com as manifestações pelas redes sociais, muita coisa vira moda. Será que pedir a ditadura é uma nova moda? Por que algumas pessoas pedem a volta da ditadura?
Meu amigo Outrem Ego arriscou uma resposta, que eu gostaria de partilhar: "Alguns brasileiros pedem a ditadura", disse ele, "por que não sabem bem o que fazer. Estão desacorçoados com tanta corrupção e bandalheira, com tanta miséria, a violência, os problemas urbanos, a falta de saúde, etc. Ora, quanto não se poderia fazer de bom, se não houvesse desvios dos recursos públicos. Não sabemos como agir. Nem temos tradição em nos organizar. Resta-nos as eleições, mas nesta dá tudo no mesmo: a democracia brasileira está engessada; as eleições são obrigatórias; os candidatos são definidos pelos partidos que, por sua vez, são financiados pelos caixas dois, etc., num círculo vicioso sem fim. Daí, sem esperança, alguns pedem ditadura e outros suplicam para que surja um salvador da pátria que faça por eles o que eles não sabem fazer".
Bem. Depois de ouvi-lo e, claro, rechaçar a ideia de ditadura, fui obrigado a lembra-lo que nosso último salvador da pátria foi retirado do poder num processo de impeachment em 1992!
__________
1Ver, por exemplo.
3Idem anterior.
4Dados colhidos no jornal Estadão.
6Idem anterior.
7Idem.

sábado, 17 de janeiro de 2015

As aparências que enganam

O título desta postagem poderia ser o título do filme "A Garota Exemplar", um suspense, com toques de drama psicológico de tirar o fôlego, com reviravoltas do início ao fim. Contudo, ainda se esperava um pouco mais. 

No filme, o casal Amy e Nick Dunne são um casal aparentemente feliz e apaixonados que se conhecem por acaso. Ele, um caipira, como ele mesmo se define, se apaixona pela menina rica da cidade grande, e depois de dois anos de namoro resolvem se casar. 

Mas aquela paixão de tono início de relacionamento, meio que vai se acabando no decorrer dos anos, em parte influenciada pela mudança para a cidade do interior. 

Entretanto não é só sobre relacionamentos que trata o filme, seu enredo principal é o desaparecimento de Amy no dia do 5º. aniversário de casamento do casal. Assim de uma hora para outra, pelo decorrer das investigações, o desleixado Nick de marido preocupado torna-se o principal suspeito do desaparecimento de sua esposa, o que deixa em pânico, pois toda a cidade se volta contra ele e a única pessoa que acredita em sua inocência e sua irmã gêmea.
 
Bem, o resto deixo para as pessoas assistirem o filme e adorar ou detestar o final, pois o mesmo é capaz de nos revelar instintos de Amor e Ódio. Acho que essa foi a intenção da autora que inspirou o filme e do diretor, Gillian Flynn - uma admirada escritora de suspense da atualidade -, e David Fincher, que desde de Seven tem minha admiração.

Como "pano de findo", o filme discute as relações no casamento, que sobrevivem por aparências. E o papel da mídia na cobertura de casos de desaparecimento/assassinato, influenciando a investigação. 

O filme pode até nos decepcionar, em certos momentos, principalmente por uma narrativa inicial lenta, mas não deixa de ser um bom filme. E o que mais gostei foi do filme sempre apresentar o ponto de vista dos personagens principais, intercalados por flashbacks. 

Mas todo o destaque do filme vai para a interpretação da atriz Rosamund Pike que dar vida a personagem Amy Dunne, que de tão marcante e as vezes fantasmagórica, concorre ao Oscar de melhor atriz, não vai me surpreender se ganhar. 
  

sábado, 16 de agosto de 2014

Amante à Domicílio

Quem vê Woody Allen num gigolô em início de carreira em "Amante à Domicilio", vai pensar que essa é o mais novo trabalho desse talentoso diretor. No entanto, mesmo o filme sendo em Nova York, tendo aquela trilha sonora sensacional, tendo texto e produção característico de Allen, este trabalho é de John Turturro. 
Neste meio drama e meio comédia, tem o estilo de Allen. Se passa em Nova York, onde um senhor de meia idade (Allen), em conversa sobre sexo com sua dermatologista - a sensual e carente doutora Parker ( Sharon Stone) - percebe que pode ter uma nova profissão, uma vez que seu negócio, uma pequena livraria de livros raros está falida. 
Assim Murray (Allen), indica seu funcionário Fioravante (John Turturro),  a quem conhece desde a adolescência para ser o amante do momento, para uma experiência de um Menagé à Trois entre a Doutora Parker e sua amiga, a llinda Selima (Sofía Vergara). Assim começa o sucesso do amante Fioravante, sendo desejado por todas as mulheres, principalmente as mais maduras. 
Uma das grandes preocupações de Fioravante é que ele se considera feio demais para ser uma amante, ou no mais popular mesmo, um garoto de programa. Contudo, Murray, o convence dizendo que ele tem a masculinidade que as mulheres procuram, que a meu entender no filme, seria o carinho e a atenção, o que não deixa de ser a verdade, todas as mulheres sempre querem mais carinho e atenção, mas principalmente a que a escutem. 
Mas todo esse sucesso como amente das mais variadas mulheres muda de sentido, quando Fioravante conhece Avigal (Vanessa Paradis), uma viúva judia, por quem acaba se apaixonando, mas suas diferenças religiosas são um empecilho para esse romance. O que trará algumas confusões, principalmente para Murray, que foi o cupido desta relação. 
O filme tem ótimas cenas, uma bela fotografia, e uma adequada trilha sonora. Quem adora o estilo de Woody Allen vai adorar esse roteiro, que pode ter seus defeitos, mais sinceramente, e muito gostoso de assistir para se divertir.
Recomendo!!!
   
 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Estranha Obsessão

Está obra cinematográfica é simplesmente sensacional, seu andamento não é convencional, mas o espectador é compelido a viver a vida e os pensamentos do personagem Tom Ricks - aqui interpretado brilhantemente Ethan Hawke. 
Muitos espectadores podem não gostar do filme, por ter um enrendo focado no subconsciente deste personagem, um professor norte americano que viaja a Paris atrás de um novo encontro com sua família. No entanto, uma ordem de restrição judicial impede de se aproximar de sua ex-esposa e sua filha, o que leva a agora somente observá-la a distância, pois a tentativa de reverter essa restrição judicial são remotas, em virtude fundamentalmente de seu passado sombrio.
Tendo seu objetivo principal de sua viajem não realizado o personagem se perde pela cidade de Paris e fica ainda mais delicada sua situação ao ser assaltado, perdendo sua bagagem e dinheiro. Assim procura abrigo e emprego num pequeno hotel em Paris, servido de vijia numa atividade certamente ilegal. 
Na tentativa de ter de volta sua rotina e inspiração para voltar a escrever, pois é um autor de apenas um único romance, conhece Margit uma misteriosa mulher que envolve Tom num trama psicológico, tornando assim uma inspiração para esse professor - autor literário. Seu trama psicológico reforça uma tese, o sexo e a tragédia deve ser a inspiração de seu novo livro, pois a perda, a conquista, o Amor, o Sexo e as grandes tragédias românticas são temas instigantes na literatura.
Desse jeito, o personagem desenvolve uma obsessão por está mulher, pois se torna o único meio para trazer novamente sua vida a normalidade. 
Entretanto essa nova amente e musa inspiradora não torna-se a única nova mulher na vida de Tom, pois o mesmo se envolve com a linda polonesa Nathalie, que vem a ser a esposa do dono do hotel em que mora, que trabalha em atividades certamente ilegais. Nathalie é uma mulher, jovem, encantadora e sonhadora que ver em Tom o homem que pode trazer esperanças de uma vida que sempre idealizou, contudo Tom não está preparado, pois sua mente é delirante, acreditando assim que o maior perigo de sua vida é ele mesmo, pois tudo que toca se destrói.
Essa trama, com toques de surrealismo, não tem em mutos sentidos uma explicação lógica, mas seu diretor consegue transitar harmoniosamente entre o Drama, Romance e o Suspense. 
Assim assita esse filme, não procure nele qualquer explicação e simplesmente aprecie cada minuto.